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Quando o excesso de positividade faz mal!

Por Paulo Amorim, com participação especial da psicóloga Ana Carolina Campos.

Calma! Não vamos aqui falar que não tem que pensar positivo, que não tem que torcer que tudo vai melhorar, que não tem que acreditar que tudo isso vai passar!

Mas será que é correto pensar positivo o tempo todo? Será que não estamos fugindo dos problemas e deixando de encarar a realidade?

E o que isso tem a ver com o marketing e as novas abordagens empresariais?

Claro que eu não ia tratar desse tema sozinho e sem o devido amparo profissional e científico que o tema exige. Então, para embasar essa reflexão convidei a minha amiga há mais de 15 anos, Ana Carolina Campos. Aninha é Psicóloga com mais de 20 anos de atuação na área de Recursos Humanos e Clínica, tendo trabalhado em diversas empresas dos mais diferentes ramos de atuação.

Aninha, para começar, muito obrigado! É um prazer ter você colaborando nessa reflexão que considero tão importante no momento atual.

E já vou colocar fogo no parquinho (#bbbfeelings): “onde foi que escreveram que tudo tinha que dar certo o tempo todo?” rs

Eu que agradeço o convite, Paulinho (vou chamar assim!). Mas vamos lá: ninguém relevante seja no campo da auto ajuda ou da psicologia garantiu que existe um meio de sempre ser feliz, de fazer sempre dar tudo certo. O que vem acontecendo há um certo tempo é um movimento por parte de alguns profissionais que vendem “fórmulas mágicas” onde, caso você faça exatamente o que é prescrito, você vai ser feliz sim. Caso você não consiga obter o resultado prometido, a culpa não é da fórmula, do plano, do treinamento: a culpa é sua, que provavelmente não seguiu tudo conforme o que foi repassado. Isto é uma maldade e uma mentira. Não existe comprovada pela ciência nenhuma fórmula de sucesso e isso por si só já invalida a culpa, que nunca deveria nem existir.

Com isso, o indivíduo ao se lançar ao extremo, assume o risco de se afogar em um mar de positividade onde obrigatoriamente tudo tem que dar certo, deixando de lado sentimentos e afetos importantes para seu processo de autoconhecimento, como frustrações, raiva, medos. Todos eles fazem parte de quem somos e aprender a lidar com eles é bem mais saudável do ponto de vista emocional do que lutar contra eles.         

O que dizem os estudos mais recentes que falam sobre essa teoria?

Na Filosofia e na Psicologia já temos uma gama considerável de autores que perceberam este comportamento na contemporaneidade e que sugerem uma série de reflexões a respeito, sempre levando o indivíduo a ser também curioso com o lado de sua vida que não é tão brilhante e reluzente, a ter interesse em se desvendar, mesmo que isso signifique vivenciar um processo difícil e doloroso.

Alguma dica de leitura para quem quer se apropriar mais do assunto?

Tenho bebido na fonte da Filosofia, que considera o impacto negativo de uma sociedade positivamente tóxica na vida do indivíduo, Byung-Chun Han e Nassim Nicholas Taleb são dois filósofos contemporâneos que devem ser lidos por quem se interessa pelo tema. Sugiro sempre para começar com Sociedade do Cansaço, do Byung e A Lógica do Cisne Negro, do Taleb. Não é uma leitura fácil mas vale muito a pena.

Pra finalizar, a gente tem visto muitas empresas fazerem a gestão baseada nesse processo motivacional do coach (alguns métodos chegam a lembrar seitas!). Como a psicologia de fato pode ajudar as empresas a motivarem seus colaboradores de uma forma honesta e verdadeira, que promova o desenvolvimento humano?

Nos anos 90 e 2000, vivemos o “boom” do Capital Humano: planos contendo uma enxurrada de práticas que pretendiam motivar os profissionais, tornando-os altamente competentes e eficientes em suas funções. Ao colocar apenas sobre o outro a responsabilidade pelo seu processo de desenvolvimento, as empresas esqueceram de olhar para si. Ambientes tóxicos, injustos legalmente, falsos em sua ética (que normalmente só estava escrita em uma bela placa na entrada que continha missão, visão e valores)  geravam o oposto do que se esperava com tanto investimento em treinamentos, workshops e palestras motivacionais. Era uma via de mão única e, evidentemente, tinha seus dias contados.

Em um certo momento dos útlimos dez anos, a Psicologia Organizacional passou a cobrar da empresa a mesma autocrítica que era cobrada em uma avaliação de desempenho de um colaborador. Este questionamento começou a gerar um processo de olhar mais para dentro de quem compõe o lado estratégico das empresas. Qual é a ética de quem comanda, de quem estabelece as regras? De nada adianta querer responsabilidade moral e técnica de seus funcionários se a empresa ainda evita pagar hora-extra ou adicional noturno, apenas para citar o mínimo.

Ainda existe um longo caminho a percorrer, mas já podemos perceber alguns avanços suaves, que mostram que estamos no caminho certo ao exigirmos ambientes mais justos, mais diversos e mais transparentes.

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